quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sentimento


            Já sabia que a dependência química unia adictos no propósito de usar drogas e participar ao mesmo tempo de rituais que faziam parte das orgias e ostentações regadas à substância.
            Acabou a droga, acabou a parceria. Vai um prá cada lado e se dane o mundo.
            Saudade, sentir falta um de outro? Comédia.
            Só se for da substância em si, aliás, a responsável por fazer um pensar no outro.
            Acabou minha droga, será que o indivíduo que estava comigo naquele dia tem mais?
            Passo por uma experiência diferente hoje.
            Conheci um indivíduo que se denominava “poeta”. Estava nas mesmas condições que a minha, ou seja, acostumado a sentar no Banco da praça para beber o fruto de um bom mangueio (pedir dinheiro). O que nos uniu em primeiro lugar foi isso. A atração. Depois a conversa e a identificação na doença. Isso a princípio já foi o suficiente para que, quando um não tinha, o outro tinha, mas não era por isso que o que tinha caísse fora quando o outro não tinha. Aí começou.
            Nos aprofundamos na rua, e já, quando um se agachava para fazer as necessidades no canto do mocó, o outro ajudava a puxar este para se levantar, tamanho a parceria e o companheirismo construído. Isso foi longe, alguns anos até nos encontrar na Casa de Apoio, onde eu já conhecia através das descrições dele, pois em outra época, ele já tinha passado uns dias.
            Foi a oportunidade que tive de conhecer o Paulo poeta sóbrio por cinco meses.
            Os lados positivos de uma pessoa inteligente, companheiro e “amigo” superou a qualquer coisinha negativa que ainda a sua personalidade de ser humano demonstrara e eu conseguia agora perceber com mais clareza. Na Casa, “Porto seguro nas Tempestades da vida” na qual ele a denomina, ele acabou sendo o meu Porto seguro diante das dificuldades que eu encontrei aqui dentro. Tomávamos o nosso café rotineiro e conversávamos. O respeito mútuo era predominante. Aprendi com ele tanto de um jeito que acabou me conduzindo para, quem sabe, a liberdade e a felicidade, como em outros momentos já dentro da casa.
            Agora o mais importante. Ele foi embora. Percebi que ainda sou capaz de sentir tristeza, e mais. Agora que ele foi “prá longe”, fui notar a falta que este indivíduo faz na minha vida.
            Tristeza prolongada me afetou, e o luto começou. Sinto-me fraco e sem chão.
            Nunca pensei que a dependência química fosse capaz de me unir a uma pessoa com o mesmo problema que eu, e resultar em uma grande amizade.

Alexandre.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo seu texto, muito verdadeiro e comovente.
    Espero que um dia você reencontre seu amigo, e que ele também possa lutar contra esta doença.
    Um feliz Natal para você.

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