Já sabia que a dependência química
unia adictos no propósito de usar drogas e participar ao mesmo tempo de rituais
que faziam parte das orgias e ostentações regadas à substância.
Acabou a droga, acabou a parceria.
Vai um prá cada lado e se dane o mundo.
Saudade, sentir falta um de outro?
Comédia.
Só se for da substância em si, aliás,
a responsável por fazer um pensar no outro.
Acabou minha droga, será que o
indivíduo que estava comigo naquele dia tem mais?
Passo por uma experiência diferente
hoje.
Conheci um indivíduo que se
denominava “poeta”. Estava nas mesmas condições que a minha, ou seja,
acostumado a sentar no Banco da praça para beber o fruto de um bom mangueio
(pedir dinheiro). O que nos uniu em primeiro lugar foi isso. A atração. Depois
a conversa e a identificação na doença. Isso a princípio já foi o suficiente
para que, quando um não tinha, o outro tinha, mas não era por isso que o que
tinha caísse fora quando o outro não tinha. Aí começou.
Nos aprofundamos na rua, e já, quando
um se agachava para fazer as necessidades no canto do mocó, o outro ajudava a
puxar este para se levantar, tamanho a parceria e o companheirismo construído.
Isso foi longe, alguns anos até nos encontrar na Casa de Apoio, onde eu já
conhecia através das descrições dele, pois em outra época, ele já tinha passado
uns dias.
Foi a oportunidade que tive de
conhecer o Paulo poeta sóbrio por cinco meses.
Os lados positivos de uma pessoa
inteligente, companheiro e “amigo” superou a qualquer coisinha negativa que
ainda a sua personalidade de ser humano demonstrara e eu conseguia agora
perceber com mais clareza. Na Casa, “Porto seguro nas Tempestades da vida” na
qual ele a denomina, ele acabou sendo o meu Porto seguro diante das
dificuldades que eu encontrei aqui dentro. Tomávamos o nosso café rotineiro e
conversávamos. O respeito mútuo era predominante. Aprendi com ele tanto de um
jeito que acabou me conduzindo para, quem sabe, a liberdade e a felicidade,
como em outros momentos já dentro da casa.
Agora o mais importante. Ele foi
embora. Percebi que ainda sou capaz de sentir tristeza, e mais. Agora que ele
foi “prá longe”, fui notar a falta que este indivíduo faz na minha vida.
Tristeza prolongada me afetou, e o
luto começou. Sinto-me fraco e sem chão.
Nunca pensei que a dependência
química fosse capaz de me unir a uma pessoa com o mesmo problema que eu, e resultar
em uma grande amizade.
Alexandre.
Parabéns pelo seu texto, muito verdadeiro e comovente.
ResponderExcluirEspero que um dia você reencontre seu amigo, e que ele também possa lutar contra esta doença.
Um feliz Natal para você.