A
rotina do Educador Social dentro da Casa de Apoio ao Morador de Rua inclui
cuidado e administração dos medicamentos dos residentes, acompanha-los em
consultas e exames médicos ou em saídas para serviços de assistência social,
servir as refeições, delegar e supervisionar as tarefas de higiene pessoal e da
casa feita pelos residentes, cuidar e distribuir materiais de uso pessoal
(higiene, limpeza, roupas de cama, vestimentas, etc.) e dar atenção especial ao
cumprimento das regras da casa, da boa convivência, do respeito e da harmonia
entre os residentes. Inclui também motivá-los nos seus tratamentos e na busca
de uma nova vida, conhecendo os residentes, dialogando com eles, instigando-os
a participar de atividades que lhes façam bem e que possam contribuir nas
mudanças que almejam para a vida deles, construindo projetos coletivos dentro
da casa (blog, jogos, música, filmes, etc.), participando, coordenando e
compartilhando dos momentos de reflexão e também de lazer dos residentes.
O
objetivo final do Educador Social cremos que seja trabalhar no dia-a-dia,
juntamente com a equipe técnica e coordenação, a autonomia e a ressocialização
do residente, além da harmonia
da casa. O Educador Social não pode, nem deve, mudar ninguém. Ele deve sim
trabalhar para que o residente consiga mudar a sua vida com as suas próprias
pernas e siga firme no seu tratamento, motivando-o para que ele possa algum
dia, por contra própria, organizar sua nova vida em sociedade fora da Casa de
Apoio, trabalhando, com saúde, com o apoio familiar ou de novos amigos, com um
lugar para morar, longe dos problemas e dos vícios de antes, em paz consigo
mesmo e com os outros.
Os
desafios são muitos. Cada residente tem uma história de vida e uma
personalidade única. Cada um traz consigo um obstáculo, um erro, um
arrependimento e também uma esperança, uma motivação, um potencial, uma
qualidade e um objetivo diferente do outro, e merece por isso atenção
personalizada.
Trabalhar
com os residentes questões como autoestima, transformação de vida, luta contra
vícios em álcool e drogas, superação de problemas físicos e psicológicos e o
rompimento do estigma contra o ex-morador de rua nem sempre é tarefa fácil
quando estamos inseridos em uma sociedade que discrimina, que tem preconceito,
que julga, que exclui e marginaliza, que ao mesmo tempo que criminaliza certas
drogas glorifica o uso do álcool, incentiva a ostentação financeira, etc. Se a
sociedade em geral continua doente assim, nossa tarefa se mostra ainda mais
importante.
As
recompensas, porém, são maiores. Ver os brilhos nos olhos de um residente com
esperança, querendo, lutando e conseguindo transformar o modo como ele vê a
vida e como age no mundo, ver residentes antes deprimidos se alegrarem através
da arte e da expressão criativa, ver residentes encontrando soluções para seus
obstáculos, ver residentes avançando em seus tratamentos, receber um sorriso,
um “obrigado”, e ver na prática que o ser humano pode transformar a si mesmo e
suas relações com o mundo para melhor, é incrível e nos dá alegria e força para
seguir adiante. Por vezes, o Educador Social aprende muito mais do que ensina.
E isso,sem dúvida, gera um ciclo positivo de aprendizados, intercâmbios e resultados imensamente
recompensadores para todos os envolvidos.
Raul Machado
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