quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Homem Só





         O pequeno quarto tinha as paredes decoradas com manchas de bolor, que dependendo da incidência da luz aparentavam formas fantasmagóricas ou, isto dependia do estado de espírito do seu morador, obras de arte que retratavam as angústias de seu autor.
      Ele acendeu um cigarro e quedou-se pensativo Fazia mais de uma hora que estava ali. Inerte. Olhos fechados ligou o radinho e, iniciou sua costumeira navegação pelo passado. Era um dos poucos prazeres que lhe restara.
          Desde que ela se fora, só escrevia em preto e branco. Seus contos e poemas perderam o colorido de outrora. Estava convicto de que nunca houve e nem haveria outra como ela em sua vida. Sabia-se solitário, mas preferia assim, só, com sua taça repleta de passado, tomando um porre de lembranças.
                    
          Esta era a sua realidade. Estava morto. Mas por que ainda estava neste quarto infecto? È este corpo! Concluiu ele, Esta maldita prisão carnal que se apega ferrenhamente aos cheiros e sons desta vida miserável. Eu estou morto. É necessário livrar-me deste carcereiro implacável.
        Decidido a concretizar o suicídio, dirigiu-se a um boteco para tomar o último porre, não de lembranças, este seria de pinga mesmo. No bar conheceu outro corno, que já meio alto estava a cantar seus lamentos. Embalado pela “mardita” juntou sua voz a do outro e quando terminaram a canção, perceberam que os fregueses, com lágrimas nos olhos, aplaudiam em pé.
        A ideia de suicídio foi esquecida e hoje formam uma dupla de sucesso e, quando o Faustão anuncia:
- AGORA COM VOCÊS... ASPUDO E CHIFRINHO!
A histérica plateia aplaude e grita: LINDO! LINDO!
        Acabaram casando com duas bailarinas do programa. Continuam levando chifre, mas não reclamam, afinal agora dividem filé mignon, e os chifres são de ouro.


                                                 Lerina

 
       

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