O pequeno quarto tinha as paredes decoradas
com manchas de bolor, que dependendo da incidência da luz aparentavam formas
fantasmagóricas ou, isto dependia do estado de espírito do seu morador, obras de
arte que retratavam as angústias de seu autor.
Ele acendeu um cigarro e quedou-se
pensativo Fazia mais de uma hora que estava ali. Inerte. Olhos fechados ligou o
radinho e, iniciou sua costumeira navegação pelo passado. Era um dos poucos
prazeres que lhe restara.
Desde
que ela se fora, só escrevia em preto e branco. Seus contos e poemas perderam o
colorido de outrora. Estava convicto de que nunca houve e nem haveria outra
como ela em sua vida. Sabia-se solitário, mas preferia assim, só, com sua taça
repleta de passado, tomando um porre de lembranças.
Esta era a sua realidade. Estava
morto. Mas por que ainda estava neste quarto infecto? È este corpo! Concluiu
ele, Esta maldita prisão carnal que se apega ferrenhamente aos cheiros e sons
desta vida miserável. Eu estou morto. É necessário livrar-me deste carcereiro
implacável.
Decidido a concretizar o suicídio,
dirigiu-se a um boteco para tomar o último porre, não de lembranças, este seria
de pinga mesmo. No bar conheceu outro corno, que já meio alto estava a cantar
seus lamentos. Embalado pela “mardita” juntou sua voz a do outro e quando
terminaram a canção, perceberam que os fregueses, com lágrimas nos olhos,
aplaudiam em pé.
A ideia de suicídio foi esquecida e hoje
formam uma dupla de sucesso e, quando o Faustão anuncia:
- AGORA COM
VOCÊS... ASPUDO E CHIFRINHO!
A histérica plateia aplaude e grita: LINDO! LINDO!
Acabaram casando com duas bailarinas do
programa. Continuam levando chifre, mas não reclamam, afinal agora dividem filé
mignon, e os chifres são
de ouro.
Lerina
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