quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O Voluntariado



O VOLUNTARIADO

            Em uma ocasião eu fazia um voluntariado no hospital de caridade até porque sempre tive vontade de andar livremente dentro de um hospital. Mais curiosidade ao visitar pacientes do que propriamente caridade.
            Tudo se modificou quando comecei a receber os resultados. Bem estar, pacientes que gostavam da minha companhia em que alguns de longa internação, com alguma doença mais grave sempre me aguardavam para uma nova visita que era semanal.
            Nesta época, como um dependente químico, eu frequentava grupos de autoajuda e conseguia levar a vida com qualidade e uma das coisas que faziam parte deste bem viver era esse voluntariado como projeto de vida. Tínhamos uma sala onde nós os voluntários nos encontrávamos, para nos dividir entre as alas do hospital que era grande. Uma turma de três para cada lado. Às vezes ia sozinho. Eu estava curtindo.
            Até então o meu objetivo de visitas estava sendo feito, mas, eu como um grande ante social que havia me tornado, decorrente de um uso prolongado de drogas, do isolamento e das fugas que elas me causavam não imaginava que a coisa iria mais longe.
            Depois de o trabalho ser realizado, as mulheres, que eram a maioria, ficavam tomando café e trocando ideias. Convidavam-me, e eu sempre com “algum motivo” dava um jeito de escapar.
            Não sendo o suficiente, na outra semana fui informado de que estavam programando uma confraternização de final de atividades do ano, pois estava chegando o final dele. Meu pessimismo já foi negando a minha participação com medo de ter que encarar uma grande parte de uma sociedade.
            Eu sempre gostei de fazer as coisas sozinhas, e as visitas do voluntariado estavam sendo um prato cheio para mim. Não sabia que além do relacionamento com os outros voluntários teria que encarar tal confraternização. O meu pessimismo já estava gritando.
            De tanto elas me incomodarem, conseguiram me convencer e me preparei psicologicamente para o bicho papão. Na festa iriam se encontrar voluntários de outras cidades e outros hospitais. A coisa foi crescendo dentro de mim a ponto que cada vez que era falado sobre ela, eu começava a suar e tremer as pernas.
             Iria ter também um amigo secreto.
            Nesta época eu estava internado devido a minha dependência química e o voluntariado fazia parte da minha ressocialização. A médica foi outra que botou pilha para que eu participasse desta confraternização, e mais, não queria que eu retornasse muito cedo de lá.
            Enfim, fui para a tal. O local era um hotel finíssimo. Quando fui chegando ao endereço já notei que a coisa não fazia parte de mim. Mas havia me comprometido com a médica, família e as próprias voluntárias. Hoje eu nem imaginaria em me comprometer com alguém uma vez que já não me comprometia mais nem com a minha vida.
            Chegando lá, já tinha umas voluntárias me aguardando na frente para me entregarem o presente que elas tinham comprado para que eu desse para o meu amigo secreto. Só eu pensava que elas não sabiam da minha condição financeira. Mentia para mim mesmo. Aliás, passei um longo período da minha vida para não dizer ela inteira infeliz, subjugado pelos outros e inconsciente das minhas capacidades verdadeiras, realistas.
            Quando entrei no recinto, percebi o Buffet e as mesas com sete talheres para cada prato. Sentei, olhei, gelei. Eram três talheres de cada lado e uma colher na frente que era a única que eu já tinha sido informado que servia para a sobremesa.
            Senti na pele o significado de impotência. Aquela que me diziam nos grupos que eu era perante as drogas, perante o álcool. Ali eu estava me sentindo impotente perante os talheres.
            Remeti-me aos grupos de autoajuda e me lembrei de que o pregado era o pedido de ajuda quando se sentisse fissurado. Uma das características da fissura eram sudorese e taquicardia, o coração acelerava. Era exatamente o que estava acontecendo quando visualizei aqueles talheres. Minha vizinha de mesa percebeu o meu apavoramento e me perguntou se eu estava passando bem. Tive que perder a vergonha na marra e dizer à verdade. Não sabia lidar com aquele monte de talher. Ela se dispôs a meu favor e à medida que ela foi se servindo eu ia copiando, pegando os talheres adequados. Cheguei aos últimos e respirei fundo. Como prêmio ainda comi uma sobremesa saborosa. Estava cansado. A Tensão foi forte.
            Elas conversavam bastante entre elas. Não sei como achavam tantos assuntos. Eu me sentia um peixe fora d´água. Estava em outro planeta. Os únicos assuntos que eu dominava até então era sobre a minha profissão e até mesmo sobre a minha doença que eu já conhecera tanto na teoria quanto na pele. A dependência química.
            Ainda tinha família e estas oportunidades bestas. Depois permiti longe disso tudo que a minha doença progredisse. Porém vivi mais intensamente.
            Voltando ao tal sofrimento, como se não bastasse, iniciou a entrega dos presentes do amigo secreto. Quando cada um entregava o presente era para ficar de pé, se apresentar, e falar algumas palavras de incentivo.Quando me chamaram e fui me apresentar quase falei que era um dependente químico, como nos grupos o que eu era acostumado. Cheguei a engolir a seco quando percebi que estava num ninho de cobras.
            Senti-me muito mal naquele recinto, porém depois de tudo passar quando retornei para a clínica de dependência química foi um “alívio”. Aquela era a minha praia. Senti que havia passado por uma guerra e tinha saído vivo e que nunca mais gostaria de passar pela mesma coisa.
            Deixei meu voluntariado de lado. Nunca mais voltei lá.

                                                   Alexandre Bandarra

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