O VOLUNTARIADO
Em uma
ocasião eu fazia um voluntariado no hospital de caridade até porque sempre tive
vontade de andar livremente dentro de um hospital. Mais curiosidade ao visitar
pacientes do que propriamente caridade.
Tudo se
modificou quando comecei a receber os resultados. Bem estar, pacientes que
gostavam da minha companhia em que alguns de longa internação, com alguma
doença mais grave sempre me aguardavam para uma nova visita que era semanal.
Nesta época,
como um dependente químico, eu frequentava grupos de autoajuda e conseguia
levar a vida com qualidade e uma das coisas que faziam parte deste bem viver
era esse voluntariado como projeto de vida. Tínhamos uma sala onde nós os
voluntários nos encontrávamos, para nos dividir entre as alas do hospital que
era grande. Uma turma de três para cada lado. Às vezes ia sozinho. Eu estava
curtindo.
Até então o meu objetivo de visitas
estava sendo feito, mas, eu como um grande ante social que havia me tornado,
decorrente de um uso prolongado de drogas, do isolamento e das fugas que elas
me causavam não imaginava que a coisa iria mais longe.
Depois de o
trabalho ser realizado, as mulheres, que eram a maioria, ficavam tomando café e
trocando ideias. Convidavam-me, e eu sempre com “algum motivo” dava um jeito de
escapar.
Não sendo o
suficiente, na outra semana fui informado de que estavam programando uma
confraternização de final de atividades do ano, pois estava chegando o final
dele. Meu pessimismo já foi negando a minha participação com medo de ter que
encarar uma grande parte de uma sociedade.
Eu sempre
gostei de fazer as coisas sozinhas, e as visitas do voluntariado estavam sendo
um prato cheio para mim. Não sabia que além do relacionamento com os outros
voluntários teria que encarar tal confraternização. O meu pessimismo já estava
gritando.
De tanto
elas me incomodarem, conseguiram me convencer e me preparei psicologicamente
para o bicho papão. Na festa iriam se encontrar voluntários de outras cidades e
outros hospitais. A coisa foi crescendo dentro de mim a ponto que cada vez que
era falado sobre ela, eu começava a suar e tremer as pernas.
Iria ter também um amigo secreto.
Nesta época
eu estava internado devido a minha dependência química e o voluntariado fazia
parte da minha ressocialização. A médica foi outra que botou pilha para que eu
participasse desta confraternização, e mais, não queria que eu retornasse muito
cedo de lá.
Enfim, fui
para a tal. O local era um hotel finíssimo. Quando fui chegando ao endereço já
notei que a coisa não fazia parte de mim. Mas havia me comprometido com a
médica, família e as próprias voluntárias. Hoje eu nem imaginaria em me
comprometer com alguém uma vez que já não me comprometia mais nem com a minha
vida.
Chegando lá,
já tinha umas voluntárias me aguardando na frente para me entregarem o presente
que elas tinham comprado para que eu desse para o meu amigo secreto. Só eu
pensava que elas não sabiam da minha condição financeira. Mentia para mim
mesmo. Aliás, passei um longo período da minha vida para não dizer ela inteira
infeliz, subjugado pelos outros e inconsciente das minhas capacidades
verdadeiras, realistas.
Quando
entrei no recinto, percebi o Buffet e as mesas com sete talheres para cada
prato. Sentei, olhei, gelei. Eram três talheres de cada lado e uma colher na
frente que era a única que eu já tinha sido informado que servia para a
sobremesa.
Senti na
pele o significado de impotência. Aquela que me diziam nos grupos que eu era
perante as drogas, perante o álcool. Ali eu estava me sentindo impotente perante
os talheres.
Remeti-me
aos grupos de autoajuda e me lembrei de que o pregado era o pedido de ajuda
quando se sentisse fissurado. Uma das características da fissura eram sudorese
e taquicardia, o coração acelerava. Era exatamente o que estava acontecendo
quando visualizei aqueles talheres. Minha vizinha de mesa percebeu o meu
apavoramento e me perguntou se eu estava passando bem. Tive que perder a
vergonha na marra e dizer à verdade. Não sabia lidar com aquele monte de
talher. Ela se dispôs a meu favor e à medida que ela foi se servindo eu ia
copiando, pegando os talheres adequados. Cheguei aos últimos e respirei fundo.
Como prêmio ainda comi uma sobremesa saborosa. Estava cansado. A Tensão foi
forte.
Elas conversavam
bastante entre elas. Não sei como achavam tantos assuntos. Eu me sentia um
peixe fora d´água. Estava em outro planeta. Os únicos assuntos que eu dominava
até então era sobre a minha profissão e até mesmo sobre a minha doença que eu
já conhecera tanto na teoria quanto na pele. A dependência química.
Ainda tinha
família e estas oportunidades bestas. Depois permiti longe disso tudo que a
minha doença progredisse. Porém vivi mais intensamente.
Voltando ao
tal sofrimento, como se não bastasse, iniciou a entrega dos presentes do amigo
secreto. Quando cada um entregava o presente era para ficar de pé, se
apresentar, e falar algumas palavras de incentivo.Quando me chamaram e fui me
apresentar quase falei que era um dependente químico, como nos grupos o que eu
era acostumado. Cheguei a engolir a seco quando percebi que estava num ninho de
cobras.
Senti-me
muito mal naquele recinto, porém depois de tudo passar quando retornei para a
clínica de dependência química foi um “alívio”. Aquela era a minha praia. Senti
que havia passado por uma guerra e tinha saído vivo e que nunca mais gostaria
de passar pela mesma coisa.
Deixei meu
voluntariado de lado. Nunca mais voltei lá.
Alexandre Bandarra
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