A Casa de Apoio Social acolhe pessoas
que estão em situação de rua, alguns por primeira vez outros como condição de
vida há muito tempo. São pessoas em risco, seja pelos perigos que a rua
oferece, seja pelas doenças físicas e psíquicas apresentadas. Então nosso
primeiro objetivo é poder acolher da forma mais humana e calorosa possível. Nas
primeiras entrevistas realizadas com o novo residente procuramos escutar além
das demandas apresentadas, escutar sua história, suas angustias, seus medos,
suas resistências e construir uma relação baseada na confiança. Oferecemo-nos
para escutar algo a mais, que vai aparecendo aos poucos, vai se revelando. Por
isso o projeto individual de atendimento vai mudando ao longo do processo de
permanência na casa, porque a cada dia algo novo aparece. Esse projeto é
construído entre o técnico e o residente e procura respeitar sua singularidade
e prioridades. Para os residentes a Casa
de Apoio termina sendo um lar, sua nova família, o apoio, onde receberão
cuidados e pensarão nos projetos, algo difícil de acontecer na rua. Aqui
exercitarão a tolerância com seu colega e responderão pelos seus atos.
Exercício muito difícil, pois sem a droga, ainda tolerar um colega que
incomoda, aprender a conviver com ele, tentar entendê-lo ou pelo menos
suportá-lo, convenhamos que precisa-se de muita vontade.
A maioria
dos nossos residentes é dependente de álcool e drogas ilícitas, mas essa
dependência já passou ao estágio mais desesperante, viver para poder usar a
substância. Ela passa de ser algo necessário, para ser o único motivo que da
força para continuar. O motor.
Nas regras
da casa, não é tolerada violência física nem uso de drogas dentro da casa. Os
residentes sabem desde o início que não é permitido chegar intoxicado na casa
ou claramente alterado por substâncias, cheiro de álcool. Mas como nosso
público majoritário e de dependentes químicos vamos trabalhando o caso a caso,
para dar toda assistência e ajuda possível para o residente.
Sabemos que
muitos só estão fazendo uma parada curta na casa para recuperar seu corpo
cansado e voltar para as ruas, outros procuram a mudança, mas em determinado
momento volta forte a vontade de usar a substância e não é possível resistir,
mesmo com a ajuda oferecida.
Quando
percebemos claramente que uma pessoa usou substância e veio para a casa
intoxicada, em algum momento ela é chamada para falar sobre esse fato, para
dizer algo sobre esse ato, que ele sabe que causa transtornos na casa e nos
seus colegas que procuram se tratar e afastar, nem que seja temporariamente do
uso de drogas. E quando a pessoa consegue pensar sobre esse ato e falar, algo
se pode revelar e ser escutado. Alguma verdade pode aparecer e ensinar para
quem puder escutar.
Os
residentes sabem que a qualquer momento podem pedir para falar sobre seus
problemas, angustias, alegrias, etc. Nem todos procuram, mas a porta está
aberta, a escuta oferecida e muitos a aproveitam e agradecem. A escuta, através
do referencial psicanalítico, possibilita sair do senso comum do que deveria
ser o melhor, segundo o ideal social, para legitimar o saber que aparece na
fala do residente, conhecer, dar tempo para poder construir laços que sustentem
a relação de atendimento.
Não é fácil,
como profissional, aceitar que mesmo com um padrão de uso de substâncias que
acaba com a saúde física, a relação com a droga que a pessoa construiu ao longo
dos anos foi a melhor solução encontrada pelo sujeito para continuar tendo um
motivo de viver. Mas se há algo que os
residentes da Casa de Apoio Social ensinam ao psicólogo é a humildade. Temos
muito a aprender sobre as soluções por eles inventadas para administrar suas
violências psíquicas e cicatrizes no corpo.
Adriana Maria Sappino
CRP: 12/ 02900

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