terça-feira, 14 de outubro de 2014

Cenas de uma noite de verão



CERTA VEZ EM UMA NOITE...



             A chuva fina e persistente cortava o negrume da noite fria, fazendo com que o hematoma social que se encolhia sob a marquise ansiasse pelo amanhecer. O papelão que o separava da gélida calçada não era suficiente para amainar a dor que ia lhe pelos ossos e a alma, se é que ainda havia uma. Ao seu lado a garrafa de cachaça atraiu sua atenção e num movimento automático a levou aos lábios, sorvendo um grande e reconfortante gole. Mentalmente agradeceu por sua companhia. Afinal era a única que não lhe devotava o desprezo que acostumara receber.
      Pelas ruas, quando embriagado, costumava gritar citando Rousseau:
      - O homem é escravo da propriedade. Só é realmente livre aquele que não possui nada. EU SOU LIVRE! LIVRE!
      O chamavam de Poeta, pois vivia da venda dos poemas que escrevia, compravam por caridade, mas ele pouco se importava, o importante era conseguir o dinheiro para a pinga, mola mestra de sua vida. Não havia se apercebido, mas não era um homem livre, a cachaça o escravizara.
       Um pouco do passado de Poeta era conhecido apenas por alguns amigos mais chegados, pois nos poucos momentos de lucidez, que eram raros, deixava-se dominar pela nostalgia e abria o coração. Contava ter trabalhado em jornais de São Paulo e na área de criação publicitária. No seu lúcido delírio falava de uma mulher. O maior e único amor de sua vida, e que seu objetivo agora, era ir ao seu encontro, entre as estrelas, que segundo ele, era onde ela estava a sua espera.
       Nas noites de verão, envolvidos na magia da bela ilha de Florianópolis, gostavam de ir beber na Beira mar norte. Numa destas noites em que um maravilhoso luar prateava seus rostos, o Poeta de olhos fechados declamou:









 EU TIVE UM ANJO
QUE ME CHAMAVA DE AMOR
EU TIVE UM ANJO
QUE NAS HORAS TRISTES
ERA ALÍVIO DA MINHA DOR

EU TIVE UM ANJO
QUE TAMBÉM ERA CHAMA
QUANDO EM NOSSA CAMA

UM DIA
DEUS O MEU ANJO LEVOU
LÁGRIMAS MUITAS LÁGRIMAS
ESTE POBRE MORTAL DERRAMOU

MAS DEUS
 TEM SUAS METAS
TRANSFORMOU-ME
EM POETA

E HOJE SEI
QUE POR MEU ANJO
NÃO DEVO MAIS CHORAR
PORQUE UM DIA ENTRE AS ESTRELAS
VAMOS NOS ENCONTRAR

     
    Apesar de ter escrito estes versos, era impossível não chorar e lágrimas percorreram o triste rosto do Poeta que fitava as estrelas, talvez procurando
um brilho, que lembrasse o olhar de sua amada. Seus companheiros mantinham silêncio, como que reverenciando o homem, que teve o privilégio de ter vivido um grande amor.

Lerina

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