CERTA VEZ EM UMA NOITE...
A chuva fina e persistente cortava o negrume
da noite fria, fazendo com que o hematoma social que se encolhia sob a marquise
ansiasse pelo amanhecer. O papelão que o separava da gélida calçada não era
suficiente para amainar a dor que ia lhe pelos ossos e a alma, se é que ainda
havia uma. Ao seu lado a garrafa de cachaça atraiu sua atenção e num movimento
automático a levou aos lábios, sorvendo um grande e reconfortante gole.
Mentalmente agradeceu por sua companhia. Afinal era a única que não lhe
devotava o desprezo que acostumara receber.
Pelas ruas, quando embriagado, costumava
gritar citando Rousseau:
- O homem é escravo da propriedade. Só é
realmente livre aquele que não possui nada. EU SOU LIVRE! LIVRE!
O chamavam de Poeta, pois vivia da venda
dos poemas que escrevia, compravam por caridade, mas ele pouco se importava, o
importante era conseguir o dinheiro para a pinga, mola mestra de sua vida. Não
havia se apercebido, mas não era um homem livre, a cachaça o escravizara.
Um
pouco do passado de Poeta era conhecido apenas por alguns amigos mais chegados,
pois nos poucos momentos de lucidez, que eram raros, deixava-se dominar pela
nostalgia e abria o coração. Contava ter trabalhado em jornais de São Paulo e
na área de criação publicitária. No seu lúcido delírio falava de uma mulher. O
maior e único amor de sua vida, e que seu objetivo agora, era ir ao seu
encontro, entre as estrelas, que segundo ele, era onde ela estava a sua espera.
Nas noites de verão, envolvidos na magia
da bela ilha de Florianópolis, gostavam de ir beber na Beira mar norte. Numa
destas noites em que um maravilhoso luar prateava seus rostos, o Poeta de olhos
fechados declamou:
EU TIVE UM ANJO
QUE ME CHAMAVA DE AMOR
EU TIVE UM ANJO
QUE NAS HORAS TRISTES
ERA ALÍVIO DA MINHA
DOR
EU TIVE UM ANJO
QUE TAMBÉM ERA CHAMA
QUANDO EM NOSSA CAMA
UM DIA
DEUS O MEU ANJO LEVOU
LÁGRIMAS MUITAS
LÁGRIMAS
ESTE POBRE MORTAL
DERRAMOU
MAS DEUS
TEM SUAS METAS
TRANSFORMOU-ME
EM POETA
E HOJE SEI
QUE POR MEU ANJO
NÃO DEVO MAIS CHORAR
PORQUE UM DIA ENTRE AS
ESTRELAS
VAMOS NOS ENCONTRAR
Apesar de ter escrito estes versos, era
impossível não chorar e lágrimas percorreram o triste rosto do Poeta que fitava
as estrelas, talvez procurando
um
brilho, que lembrasse o olhar de sua amada. Seus companheiros mantinham
silêncio, como que reverenciando o homem, que teve o privilégio de ter vivido
um grande amor.
Lerina
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